Atraídos pelo ouro da Guiana Francesa, brasileiros invadem ilegalmente o território em busca de um sonho que pode estar acabando

"Combati o bom combate. guardei a fé". Os dizeres na camisa camuflada do nosso proeiro são a única coisa que consigo distinguir à minha frente. Não deixa de ser reconfortante. São três e meia da manhã e não há lua.

O breu só é quebrado pela lanterna presa à testa de Bundinha, nosso piloto, à procura das inúmeras pedras que ameaçam o sucesso da viagem. A seus pés estão três hélices sobressalentes, o que deve, mas só deve, nos garantir propulsão até o final. Nilma e eu somos os únicos passageiros na canoa de madeira de 8 metros, carregada com meia tonelada de mantimentos e impulsionada por um cansado motor de popa Yamaha de 15 hp, que acaba de entrar no rio Sikini. A partir daqui somos clandestinos.


"Bem-vindo à França", me diz Bundinha. Não estamos entrando exatamente no país europeu, mas na única colônia remanescente na América do Sul, a Guiana Francesa, também o único pedaço da Comunidade Européia fora da Europa. Por muito tempo o desgarrado território europeu não passou de uma insalubre colônia penal, tornada célebre pelo ex-presidiário que se fez escritor, Henry Charriére, que transformou o relato de sua ousada fuga da temida Ilha do Diabo, uma ilha presídio rodeada por águas infestadas por tubarões, no best-seller Papillon. Na década de 60, a proximidade da linha com o Equador fez a colônia ser escolhida para sediar uma base francesa de lançamentos de foguetes, na cidade de Kourou, dando ao território relevância estratégica e atraindo uma leva de peões brasileiros para sua construção. Até hoje um bom número de brasileiros, sobretudo da região norte do país, tentam ilegalmente a sorte e os salários em euro da colônia.

Mas não é das maravilhas do primeiro mundo que estamos atrás. O que nos traz aqui (bem, o que me traz aqui é a matéria; o nós se aplica melhor a Bundinha e Nilma) é ouro. Estimadas 400 toneladas dele, espalhadas generosamente e a pouca profundidade pelo subsolo guianês.

Há muito conhecida pelos descendentes de quilombolas que habitam as matas da colônia, no início da década de 90 um estudo do governo francês confirmou a abundância do vil metal na região. Levou pouco tempo para as matas guianesas serem invadidas por garimpeiros brasileiros, empurrados para o norte pelo esgotamento das reservas superficiais do mineral do lado de cá da fronteira e a crescente dificuldade legal em explorá-lo. Não existem estimativas precisas do número de garimpeiros brasileiros espalhados pelas selvas da vizinha colônia. Uns falam em 30 mil, já a polícia francesa lida com um número bem menor, cerca de 11 mil, a maior concentração deles na região do rio Sikini, onde estamos entrando. O Sikini deságua no rio Oiapoque, que marca a fronteira de 730 quilômetros entre o Brasil e a Guiana, a cerca de 80 quilômetros a oeste da cidade de Oiapoque. Pouco atraente e pessimamente mantida, a cidade de 20 mil habitantes foi por muito tempo considerada a mais ao norte do Brasil, alter ego da gaúcha Chuí.

Nosso ponto de partida dessa madrugada foi um pequeno arquipélago no Oiapoque conhecido como Ilha Bela, ou apenas A Ilha, para onde boa parte dos comerciantes, todos brasileiros, que atuavam dentro do Sikini transferiu seus estoques depois que a Gendarmerie Nationale francesa, espécie de polícia militar federal, começou a fazer visitas regulares à região e queimar tudo o que encontra pela frente. Como a ilha está na parte brasileira do rio, fica fora do alcance dos franceses.

"Já queimaram duas cantinas minhas. De uma só vez perdi R$ 27 mil em óleo [diesel]. Se fosse vendido no garimpo renderia 1,4 quilo de ouro [cerca de R$ 56 mil na cotação atual do ouro fino na Bolsa de Londres, referência usada por todo o comércio de ouro na região]. Fiquei até sem roupa", conta Bundinha, enquanto empurramos a canoa por cima de paus e pedras em nossa jornada rio acima. Antes de o sol nascer são três as corredeiras que temos que superar levando-a nos braços, em mutirão com as tripulações de outras canoas também a caminho dos garimpos, apenas sob a luz das lanternas. As várias topadas nas pedras ajudam a acordar. Com dia claro a tarefa fica mais fácil, mas não menos cansativa.

É difícil navegar mais de vinte minutos sem ter que entrar na água para ajudar a canoa a superar algum obstáculo.

Nosso destino, uma currutela (termo garimpeiro para um vilarejo que se forma em torno de um garimpo) com o mesmo nome do rio, é a porta de entrada para cerca de oito regiões garimpeiras ligadas por picadas no meio da mata. Todos ali são brasileiros. O Sikini (a currutela) é o mais longe que se pode atingir por rio, e isso na época de cheia. A partir daí só "varando", ou seja, a pé ou, para os mais abastados, em quadriciclos com tração nas quatro rodas. As picadas são como estradas, e têm até cantinas (como os garimpeiros chamam os comércios que lhes vendem de tudo, de pilhas a combustível, com preços, altíssimos, cotados em grama de ouro; papel moeda não circula ali dentro) de apoio às suas margens. Por elas pode-se chegar até o Suriname, cujas matas também estão infestadas de garimpeiros brasileiros, depois de uma "varação" de cerca de 16 dias. Não são poucos os que encaram a viagem. A currutela mais próxima do Sikini é a Sapucaia, um dia de viagem em quadriciclo ou dois a pé. Foi levando carga (com peso médio de 60 quilos) para lá, nas costas, a 15 gramas de ouro (R$ 600) por viagem, que Bundinha conseguiu literalmente sair da lama e comprar a canoa em que viajamos. Mas nem assim se viu livre da Gendarmerie. Há 20 dias foi surpreendido por uma patrulha e teve uma canoa queimada e um motor de 15 hp, igual ao que nos empurra, confiscado.

Temos sorte de conseguir entrar pelo rio. Faz apenas duas semanas que os gendarmes (como são chamados os soldados da Gendarmerie, inclusive pelos brasileiros) deixaram sua boca, onde ficaram acampados durante dois meses e praticamente isolaram os garimpos da Ilha, que é sua única fonte de mantimentos. O arquipélago, por sua vez, é abastecido pelo comércio da cidade de Oiapoque, que tem cerca de 90% de sua economia dependente dos garimpos. Há cerca de um mês os gendarmes também tentaram interromper essa via de abastecimento. Baixaram de helicóptero numa corredeira intransponível no rio Oiapoque conhecida como Gran Roche, onde voadeiras (lanchas de alumínio com cerca de 12 metros de comprimento ideais para navegar em rios) vindas do Oiapoque descarregam suas cargas para serem transferidas para outras que esperam depois das pedras, e queimaram tudo que estava do lado francês, que além de ocupar a maior parte das pedras oferece o ponto mais fácil para fazer a transposição das cargas. Vinte voadeiras foram destruídas, seus motores apreendidos e toneladas de combustível e mantimentos viraram cinza. Políticos locais tentaram, sem sucesso, dar à ação cores de incidente diplomático, mas a lição foi aprendida. Quando passei por ali na véspera de entrar no Sikini, a transposição das cargas foi feita pela acidentada margem do lado brasileiro.

Fui para ilha bela de carona com seu Domingos, chapéu com os dizeres "sou garimpeiro, sou brasileiro" na cabeça, dono de um comércio na Ilha e uma cantina no Sikini, e sua esposa, Arcângela. Domingos é maranhense e passou 29 de seus 50 anos metido em garimpo; ela é capixaba de Nova Enéssia e só foi se meter em garimpo depois que o conheceu. É na cantina do casal que ficarei abrigado no Sikini e é sua casa que me hospeda na Ilha. Conosco na voadeira iam 2.800 quilos de mercadoria, suficiente para manter seu comércio abastecido apenas por alguns dias.

Domingos e Arcângela são o retrato da ocupação recente do norte do Brasil, um mundo em grande parte desconhecido do resto do país. Tentando fugir da miséria de sua Vargem Grande natal, onde o pai era um pequeno agricultor, Domingos "caiu no mundo". Naquela época, que coincide com a chegada dos Sarneys ao poder do estado, o mundo que oferecia mais oportunidades para ele e milhares de conterrâneos deixarem a desolação que até hoje assola o estado, três décadas dos Sarneys depois, eram os garimpos do sul do Pará e norte do Mato Grosso. Foi nessa época que o Norte do Brasil virou palco da maior corrida do ouro que o mundo viu depois da conquista do oeste americano, impulsionada em grande parte por braços maranhenses.

Com a crise do petróleo do meio da década de 70, que atingiu pesado a economia mundial, em especial a americana, e ameaçou seriamente a estabilidade do dólar, investidores correram para a segurança do ouro, procurando abrigo da queda geral das bolsas de valores ao redor do mundo. Como conseqüência o preço do metal disparou no mercado internacional.

Nessa mesma época nosso governo militar deu início à sua política de "distribuir as terras sem homens da Amazônia para os homens sem terra do Brasil", marcando o início do fim da Amazônia. As novas estradas que passaram a cortar a selva facilitaram o acesso ao interior da floresta e uma série de grandes jazidas de minérios, entre elas muitas de ouro, começou a ser descoberta. A mais famosa de todas foi Serra Pelada, cujo formigueiro humano impressionou o mundo, mas uma série de outras áreas igualmente ricas atraiu multidões. Na virada da década de 70 para 80 cerca de 400 mil pessoas arriscavam a sorte nos vários garimpos da região.

Seu Domingos acompanhou de perto essa história, tendo passado por vários dos garimpos mais famosos da época, inclusive Serra Pelada, que o assustou com o número de pessoas que morriam regularmente soterradas por instáveis barrancos. Foi nessa mesma época que o pai de dona Arcângela trocou o Sudeste por um dos milhares de lotes que o Incra começou a distribuir às margens da recém-aberta Transamazônica, e instalou a família na cidade mais próxima, Marabá, então rodeada de florestas, alguns quilômetros ao norte de Serra Pelada.

Apesar das trajetórias semelhantes, os dois só foram se conhecer cinco anos atrás, já no Oiapoque, quando Dona Arcângela, atrás de emprego inexistente em Marabá, hoje já sem uma árvore à vista, foi trabalhar de cozinheira na casa de amigos onde Domingos costumava pousar entre suas temporadas no Sikini. Fazia apenas três anos que ele estava na região, que vivia o auge da fofoca (termo que os garimpeiros usam para definir uma região que esteja rendendo) do ouro da Guiana, vindo de uma fracassada tentativa de construir uma vida fora do garimpo. Todo o dinheiro guardado nos anos de baixão desapareceu numa empreitada comercial que, como freqüentemente acontece com investimentos de garimpeiros no chamado mundo normal, deu errado.

É de Domingos a carga que Bundinha transporta na canoa que nos leva Guiana adentro. Antes de partirmos, meu anfitrião estava apreensivo. Um "sem futuro" havia queimado o barraco usado como base pelos gendarmes na boca do rio e ele temia que os franceses não deixariam barato. "Pra que mexer com os 'homi'?", se exasperava.

A relação dos garimpeiros brasileiros com os gendarmes é bem curiosa. Apesar dos constantes prejuízos causados pela polícia francesa, raramente ouço alguém se referir a eles com ódio. "Esses homens são bons demais. Eles pegam a gente e não batem nem nada. Não mexem com ninguém. E ainda ajudam quem precisa", contou Domingos, sob a concordância dos cerca de cinco consumidores com quem batia papo em sua cantina.

É à base dos gendarmes, 15 minutos rio acima da Ilha, que os garimpeiros recorrem quando alguém se acidenta gravemente ou cai seriamente doente. O socorro médico nunca é negado e não raro os pacientes são levados de helicóptero para se tratar na capital guianesa, Caiena.

"Somos a França, temos nossos valores", me explica orgulhoso o Comandante Pons, oficial da Gendarmerie encarregado de combater os garimpeiros brasileiros, em seu quartel general, em Caiena. Se o governo brasileiro tivesse os mesmos valores, provavelmente a maioria dos brasileiros nas selvas da Guiana não estaria ali.

Mas se depender de Pons vai ficar cada vez mais difícil trabalhar em lugares como o Sikini. A pressão é grande para que a presença dos brasileiros seja combatida. A maioria dos rios da colônia, antes de águas límpidas, tornou-se barrenta e contaminada por mercúrio. As matas estão sendo destruídas. A riqueza que é levada para o outro lado da fronteira não deixa um centavo de imposto. Grupos ambientalistas e a indústria do turismo são os que mais exigem uma atitude enérgica.

A estratégia de pons é evitar o confronto, mas causar tamanho prejuízo aos brasileiros ao ponto de tornar inviável continuar trabalhando no território francês. Recursos não são problema. Sua equipe tem apenas cinco homens, mas tem o poder de mobilizar, quando quiser, o apoio não só do efetivo de cerca de 800 gendarmes que policiam a colônia, mas o que precisar dos cerca de 4 mil soldados franceses e membros da Legião Estrangeira estacionados ali – incluindo o mais importante, seus equipamentos.

Só em 2005 foram 107 operações de destruição, cerca de duas por semana, número que aumentou em 2006.

"É como uma guerra econômica", explica o comandante francês. Guerra essa que ele pretende vencer, mas não sem deixar de admirar a capacidade de sobrevivência dos brasileiros. "Com nada eles fazem coisas incríveis", reconhece.

Quando cheguei no Sikini ficou claro por que essa capacidade de sobrevivência é necessária para encarar a vida nos garimpos guianeses. Não é tarefa para qualquer um.

Se não fosse a carona no quadriciclo de Márcio, que costuma transportar a carga de Seu Domingos e a pedido desse me esperava no Capivara, um porto usado quando o rio está baixo demais para permitir que as canoas cheguem até o Sikini, teria que andar duas horas numa picada enlameada pra chegar à currutela, que não passa de uma rua no meio da mata com barracos de lona dos dois lados. A estrutura já foi melhor antes de os gendarmes intensificarem suas ações, há cerca de quatro anos, pondo fim aos tempos áureos da região. Nessa época um dos vários cabarés que propiciavam o divertimento noturno e freqüentemente limpavam as economias dos mais afoitos tinha até chão de cimento. Hoje não vale a pena investir nem em casas de madeira, mesmo que simples, se é certo que mais cedo ou mais tarde os gendarmes virão para queimá-las.

A currutela, na verdade, é apenas um ponto de apoio de uma complexa cadeia econômica. Não são apenas garimpeiros que trabalham num garimpo. Aliás, freqüentemente esses estão na base da pirâmide social. Enquanto não batem num bom veio de ouro, o que na maioria das vezes nem acontece, podem ficar meses trabalhando num baixão enfiado no meio da mata, a horas ou dias de caminhada do vilarejo mais próximo, só pelo rancho fornecido pelo dono das máquinas. O trabalho no baixão é brutal e devastador para o meio ambiente. Usando uma bomba a diesel superpotente para pressurizar a água chupada de um reservatório próximo, geralmente criado com o represamento de algum córrego, uma equipe de quatro homens vai abrindo um buraco no chão da mata com uma mangueira de pressão similar à dos bombeiros. A força da água é enorme e se a mangueira escapulir das mãos do operador vai começar a chicotear no ar descontroladamente. Caso o bico que controla o jato, que pesa alguns quilos, pegue na cabeça de alguém, é morte na certa. A água misturada com terra e, idealmente, ouro removida pelo jato d'água é então chupada por uma bomba de sucção e despejada numa espécie de escorrega de madeira revestido de carpete. É o carpete que acumula o ouro em pó, que é separado de suas impurezas ao ser misturado com mercúrio líquido, um metal pesado extremamente tóxico, e queimado com um maçarico. O processo todo é bastante simples e tosco. Nenhuma precaução, seja com os cursos d'água, a mata ou a saúde dos trabalhadores, é tomada.

O operador do bico jato é quem faz o trabalho mais pesado, já que a qualquer vacilo a mangueira pode ganhar vida própria. Mas quem controla a mangueira de sucção também não pode dar mole, além de ser obrigado a passar o tempo todo dentro d'água. Se a mangueira sugar ar em vez de água o motor pára e toda a operação tem que ser interrompida até a máquina ser sangrada para voltar a funcionar, o que pode levar um certo tempo. Eventualmente uma cobra desce junto com a terra e erra assustada e sem direção pela lama, situação não muito confortável para quem está descalço e atolado ali até o meio das canelas. É para lidar com elas e com o entulho que desce do barranco, e manter as máquinas em ordem e com combustível, que servem os dois outros membros da equipe. As posições são regularmente alternadas, sobretudo para evitar a exaustão do operador do bico jato, cujos músculos não relaxam um segundo enquanto a mangueira está em suas mãos.

A jornada de trabalho pode chegar a 16 horas por dia e a única remuneração fixa é a comida e o alojamento, normalmente uma barraca de lona ainda mais precária que as da currutela. A malária é companheira constante. Se finalmente encontram ouro, 50% da produção fica com o dono das máquinas e 25% com seu gerente.

O que sobra é dividido igualmente entre o povo do baixão. Apesar de sua dureza, para muitos essa vida parece a mais atraente entre outras poucas alternativas. "Com todo o pouco que a gente ganha aqui dentro ainda é mais do que lá fora", me diz Santarém, que trabalha num baixão que visito, próximo à currutela do Sikini.

Garimpo é um vício difícil de largar, mas para a maioria dos que se dispõem a encarar essa vida também é a única possibilidade de mobilidade social. Na maioria das vezes o salto é apenas de miserável para remediado. "Quem não tem leitura, como eu, tem que entrar pro mato pra trabalhar. Isso se quer ver os filhos estudando", me explica um colega de Santarém que há quatro meses não sai ali de dentro, mas tem a sorte de conseguir fazer de um a quatro salários mínimos em todos eles. Com menos sorte, ele já chegou a ficar um ano e meio sem poder sair de outro baixão, também na Guiana.

Mas não é só no baixão que se pode fazer ouro num garimpo, apesar de o produto dele ser a base de tudo. Há toda uma economia que funciona ali dentro que não envolve sofrer sob a pressão de um bico jato. É um capitalismo na sua forma mais pura que funciona de maneira bastante eficiente e sem conflitos trabalhistas. Tirando as cozinheiras, que ganham um fixo, a maioria dos que são empregados recebe por produtividade. Não ouvi ninguém reclamar da remuneração. As profissões ali dentro são inúmeras, basta inventar algo pelo qual alguém se disponha a pagar. Há os carregadores, pilotos de quadriciclo, motoristas dos cerca de 17 tratores que transitam ali dentro, encarregados das cantinas, vendedores eventuais, chamados de marreteiros (como Nilma, minha companheira de viagem na canoa de Bundinha), mecânicos para todas as máquinas, ourives e, sempre indispensáveis, as prostitutas, que são livres empreendedoras e não se submetem a cafetões.

No topo da cadeia social estão os comerciantes e os donos das máquinas, sejam as do baixão ou as que circulam com carga, que são normalmente as mesmas pessoas.

Num garimpo pode-se fazer basicamente o que bem entender. Cada um cuida da própria vida e evita se meter na dos outros. As palavras democracia e burocracia são freqüentemente confundidas. Os limites são impostos pela lei da 12, calibre preferido e abundante. E o que não falta são juízes dispostos a aplicá-la. É conversa corrente que algumas estrelas do programa Linha Direta circulam à vontade por ali, desfrutando do desejado anonimato, bastante perturbado pela minha presença. No dia que cheguei, uma das canoas com que cruzamos descendo o rio foi assaltada e 800 gramas de ouro foram levados de um garimpeiro que transportava ainda o ouro de outros três. Era dinheiro que seria mandado para as famílias nas cidades, para pagar as contas da casa, a escola dos filhos e as dívidas da praça. Os assaltantes, que tinham os rostos cobertos, sabiam do que estavam atrás, pois não levaram nada dos outros passageiros do barco.

No fim da tarde já havia vários suspeitos do assalto e na manhã seguinte ao menos uma patrulha já partira na caça deles. A justiça ali não perde muito tempo em elucubrações. E é aí que mora o perigo. Em uma das reuniões em que se planejava a criação de mais uma equipe para a caçada minha presença não constrangeu ninguém e vários nomes foram apontados como os autores do roubo, apesar de a ação ter sido praticada apenas por três pessoas. Para cada nome levantado algum dos presentes se propunha logo a partir para a ação e matá-lo. "Mas ele já deve estar escondido no mato", ponderou um. "Então a gente pega a mulher dele que ele aparece", responde outro. "Eu vi o irmão dele ontem", diz um terceiro. "Se eu encontro com esse, mato na hora, ai se não mato!", reage outro, cujo ouro estava entre o roubado. Alguém menciona que o irmão é boa gente.

Na última vez que algo semelhante aconteceu morreram sete em um só dia, entre eles três que depois se constatou serem inocentes. É a justiça na base da tentativa e erro.

Mas não é a lei da 12 a que mais mata. A cachaça e o crack são os algozes mais freqüentes, não por suas conseqüências físicas, mas pela valentia que estimulam. Por isso a currutela é vista como o lugar mais perigoso do garimpo.

Como me explicou a cozinheira de seu Domingos, ainda na Ilha: "O povo ali não briga, não. Fazem logo é matar".

Pistola na cintura ou 12 ao ombro, várias de repetição, são acessórios comuns por ali. Como nos filmes de faroeste, é nos cabarés, que não passam de barracos de lona ou madeira com algumas mesas, um freezer recheado, balança de precisão no balcão como caixa registradora e som nas alturas, que os destinos costumam ser selados. É quando o ouro é farto que a coisa fica mais perigosa, com vários brabos carentes dispostos a viver em uma só noite tudo o que não puderam nos meses enfiados no mato. É um lugar evitado pelos que não gostam de confusão. Como me explicou seu Domingos, que é evangélico, ainda em nossa viagem para a Ilha: "Dos que começaram comigo no garimpo só estão vivos os humildes".

Dormir na currutela exige uma certa dose de coragem ou indiferença fatalista. Tipo o que será, será. Um ataque aleatório não é provável, mas não é muito tranqüilizador escutar os vários tiros disparados durante a noite enquanto durmo numa rede apenas com paredes de lona a minha volta. Me garantem que os tiros são para o alto, ou ao menos a maioria deles, prova disso é a ausência de corpos estendidos na rua pela manhã, mas não é muito fácil confiar no senso de direção de um garimpeiro noiado. Como sabe qualquer carioca, basta uma bala. Mas pelo que me dizem as noites por ali hoje estão muito mais seguras do que já foram.

No caso de uma eventualidade, ao menos a currutela conta com a presença salvadora de Cavalcanti. Formado como técnico de laboratório, no garimpo ele é também farmacêutico, infectologista, cirurgião e especialista em trauma. Em seu barraco de lona, onde um cartaz anuncia a realização de exames de malária, urina, fezes, gravidez e leishmaniose (na grafia do nome científico!), é capaz de realizar até pequenas cirurgias. São 24 anos de experiência prática no que chama de "medicina de garimpo". "Lá fora o que eu tô fazendo é crime, mas aqui dentro sou só eu. Vou deixar morrer?", questiona.

Quando passo por sua barraca numa tarde de calor sufocante, encontro-o coletando o próprio sangue para um exame. Vinte minutos depois, com um temporal já formando sobre nossas cabeças, a lâmina confirma seu diagnóstico: malária. A doença, onipresente no garimpo, é sua grande especialidade, assunto sobre o qual garante poder discutir em igualdade de condições com qualquer especialista mundo afora. Afinal, quantos desses têm a oportunidade, como ele, de tratar de cerca de 100 casos por mês (a 3 gramas de ouro – R$ 120 – por paciente)? Se depender dos conhecimentos de Cavalcanti, ele garante, ninguém ali morre da doença. Garantir o mesmo para os feridos por bala ou acidentes já é mais complicado, mas ao menos esses são preparados da melhor maneira possível para encarar a viagem de seis horas de canoa até o acampamento dos gendarmes, às margens do Oiapoque, o hospital de emergência favorito do médico do garimpo. Não que Cavalcanti já tenha colocado os pés por lá. Se o fizer não contará nem mesmo com a gentileza de ser deportado, vai é em cana mesmo, e não só por exercício ilegal da medicina. Seu nome já é conhecido entre os gendarmes, para quem ele é um grande mistério. A cada incursão na currutela é ele que os policiais mais procuram. Crêem que, pelo seu nível de instrução, deve ser uma espécie de líder dos garimpeiros dali. O que diverte bastante o "doutor". "Você já viu garimpeiro ter chefe? Aqui é cada qual pra si mesmo", ri.

Esse espírito anarquista, que garante a sobrevivência ali dentro, no mundo lá fora acaba sendo uma cruz. "O camarada sai do garimpo, vai procurar emprego e é como se tivesse saído da penitenciária", reclama Irmão, garimpeiro evangélico que encontrei na viagem de volta pro Oiapoque. "As pessoas vêem só o lado da droga e da violência. Nunca vêem o lado de quem tá tentando trabalhar. Tá errado pra tentar viver certo", me diz em seu tom tranqüilo. "Na cidade eu não gosto de dizer que sou garimpeiro, as pessoas perguntam logo quantos eu já matei.

Parte do problema é que o garimpeiro pode passar anos isolado dentro do garimpo, vivendo em condições terríveis e praticamente sem contato com não garimpeiros. O garimpo vira sua vida. Uma vez na rua é difícil fazer a transição. "Quando vai pra cidade a gente descobre que fala uma outra linguagem", me diz Bundinha, 11 filhos com sete mulheres, tudo "largado por aí". Quem melhor me resume a questão é um comprador de ouro de Oiapoque, ele mesmo ex-garimpeiro. "Tem um ditado no garimpo que diz: 'É mais fácil um homem virar garimpeiro do que ele voltar a ser homem de novo'."

Em breve essa cruz vai começar a pesar. O Sikini tem seus dias contados. A maioria dos garimpeiros aposta que a repressão dos gendarmes franceses não será suficiente para dissuadi-los de trabalhar ali. O que eles não contam é que sua principal base de apoio, a Ilha, o cordão umbilical que alimenta o garimpo, muito em breve vai deixar de existir.

O arquipélago está dentro da área do Parque Nacional das Montanhas de Tumucumaque, criado em 2002 justamente para proteger a rica floresta que faz a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. De acordo com a legislação brasileira, não pode haver moradores dentro de um parque nacional. "Muito menos causando dano ambiental para apoiar uma atividade ilegal num país vizinho", me diz Marcela Marins, uma paranaense em seu terceiro ano de Ibama que é a chefe substituta do Parque.
 
Ela e seus colegas já estão se preparando para dar início ao processo de remoção das cerca de 100 casas que ocupam as ilhas e já se espalham para a margem brasileira do rio. Como não têm poder de polícia, eles precisam solicitar a desocupação à justiça, que então ordena que a Polícia Federal ou o Exército façam o serviço.

Além do dano ambiental causado, o que mais preocupa o Ibama na ocupação das ilhas é a enorme quantidade de combustível armazenada ali, sem o menor cuidado, que se detonada pode facilmente mandar a comunidade toda para a Lua. Com a situação sob controle, Marcela poderá finalmente dar início a seu plano de estimular o turismo ecológico na região, que é deslumbrante.

Sem a llha, e com um maior rigor no controle do tráfego de mercadorias pelo rio Oiapoque já sendo negociado entre a Polícia Federal e o Exército brasileiros e a Gendarmerie francesa, a vida dentro do Sikini vai se tornar inviável. De 2004 para cá a cooperação entre o governo da Guiana e as autoridades brasileiras para lidar com a invasão da colônia vizinha se intensificou bastante. A Polícia Federal do Oiapoque, que apenas em 2006 ganhou instalações adequadas, já estuda montar um posto de fiscalização na Gran Roche, para impedir a passagem de mercadoria para os garimpos.

Como não existe outra grande fofoca de ouro no radar, apenas as já saturadas e hostis áreas do Suriname e um ou outro garimpo pouco produtivo no Brasil, os garimpeiros vão ficar sem ter para onde ir. As ações previstas do lado brasileiro não incluem um plano de "desmobilização" para esse exército e a perspectiva de se ver invadida por uma turba de sem-garimpos apavora a prefeitura de Oiapoque.

Numa apertada sala do prédio tão mal cuidado quanto a cidade que abriga a prefeitura, Edson Maia, secretário de obras do município, foi surpreendentemente sincero: "Ainda bem que você não perguntou se estamos preparados para lidar com o problema. Estamos temendo saques". Com a decadência econômica inevitável, eles deixam para se preocupar depois.

O comprador de ouro do Oiapoque aposta em Roraima como possível destino para a turma, mas lá todo o ouro está em terras indígenas, como a maior parte das grandes reservas conhecidas hoje no Brasil. As que não estão em áreas indígenas estão dentro de parques nacionais, áreas militares ou outras regiões protegidas. A última fofoca de Roraima, no final da década de 90, dentro da mesma área indígena que ele aponta como possível alvo de agora, resultou no massacre de vários índios e numa ação da Polícia Federal de ferocidade ímpar para retirar os garimpeiros de lá. É pouco provável que as autoridades permitam que tamanho caos se repita agora, com a sociedade cada vez menos tolerante ao dano ambiental causado pelo garimpo.

Serra Pelada, que comenta-se voltará à atividade, só reabrirá se for explorada de forma mecanizada, provavelmente por uma empresa associada à cooperativa de garimpeiros que ganhou na justiça o direito de explorar a mina, isso se a cooperativa conseguir sair do processo de guerra civil permanente em que vive.

A morte do Sikini marcará o fim da que talvez seja a última grande fofoca de ouro que o Brasil vai ver. O fim de uma era e de uma espécie.

O repórter fotográfico André Vieira escreveu sobre o Acre e a minissérie global Amazônia na edição 1 da Rolling Stone (out. 2006)

Fonte:
http://www.rollingstone.com.br/materia.aspx?idItem=189&titulo=O+%u00faltimo+grande+garimpo+brasileiro%3f&Session=Conex%u00e3o+Brasilis{jcomments off}